Já a estrela boieira desaparecia no céu quando pegou no farnel e saiu para os campos.
Os
bois esperavam pacientemente, já emparelhados e brochados na carreta.
–
Chico, levas tu os bois lá para as searas, que eu vou à frente com a égua –
disse ti Bento Malaquias esporeando a égua que seguiu a trote.
Era
caminho para uns bons três quartos de hora ao ritmo cadenciado dos cascos dos
animais e do lamento das rodas do carro, ferindo o silencioso despertar do dia,
chamando para a vida diurna todos os seres protegidos pelo manto da noite.
Breves
momentos em que a magia dos sonhos noturnos se confunde com os primeiros raios
de luz do dia, que esvoaçam numa brisa leve e timidamente fresca, arrastando
consigo os sons da planície que desperta.
Breves
momentos em que os sons e os cheiros da madrugada se esvaem pelo pensamento,
trazendo de novo memórias antigas, dolorosas, sem remédio agora.
Os
pensamentos levam-no até à sua infância, ao dia em que ouviu o avô dizer que o
ia levar à escola para aprender a ler e a escrever, que era coisa boa e bonita
e seu grande desejo.
O
orgulho que sentiu caminhando ao lado do avô em direcção à vila, foi
abruptamente cortado pela voz do capataz, oferecendo-se para levar o moço para
a herdade, para tomar conta dos porcos:
–
É vinte e cinco tostões e o comer – disse de uma assentada!
Tempos
duros aqueles, em que por vinte e cinco tostões ao mês e o comer ficou adiado o
seu sonho de aprender a ler e a escrever!
Ainda
dói. Provavelmente vai doer toda a vida, mesmo sabendo que não podia ter sido
de outro modo, que o avô não tinha trabalho e a fome entrava em todas as casas,
avassalando todo um povo.
Tempos
duros esses!
Tempos
duros estes, que continuam hoje!
À
medida que se aproxima do rancho, ficam mais nítidos e perceptíveis os sons e
as vozes, as conversas e os risos. Os vultos tomam formas, permitindo
reconhecer cada um dos seus companheiros.
O
sol vai subindo no céu.
Já
o capataz deu as suas ordens.
Já
o rancho avança na cadência de uma moda.
Já
o Manel, que é coxo de nascença, saiu para a fonte com a burrinha manca, para
que não falte água aos homens e mulheres, que o astro ameaça calor.
Já
o suor teima em correr por entre o pó dos rostos, já cansados.
Já
a Felismina carregou lenha, fez lume debaixo da azinheira grande e olha pelo
jantar do rancho, para que não falte nem lume nem água em nenhuma panela, pois
os homens e mulheres chegam ao meio-dia.
Já
o Manel inicia a terceira viagem à fonte. Só chegará junto do rancho a horas do
jantar.
À
hora o rancho junta-se debaixo da azinheira grande, cada um com a sua panela,
onde invariavelmente cozeram o feijão ou grão com arroz ou batatas, que é o que
a terra dá, e um pequeno naco de toucinho, de tempos a tempos linguiça e,
raramente, outro conduto.
É
o tempo do descanso da hora de verão, duas horas bem merecidas para que os
corpos refresquem e se recomponham da dureza do trabalho da ceifa, dos fardos e
do calor.
É
o tempo de mulheres e homens da terra conhecerem melhor as mulheres e homens
que chegaram em camionetas de caixa aberta, vindos de outras terras,
desenraizados pela falta de trabalho, à contrata, que é como quem diz
escolhidos como escravos, em praças de jorna, pelos capatazes que corriam as
terras em redor.
É
o tempo das graças, dos dichotes, das brincadeiras, também essas já cansadas de
tanto serem repetidas ao longo dos tempos, mas, quer por força do cansaço quer
por jeito de quem as diz, mantêm alguma boa disposição.
É
o tempo de as raparigas sonharem, brevemente, com histórias de princesas e
príncipes, encantos que as vozes dos mais velhos cortam, proíbem, chamando-as à
dura realidade.
É
o tempo de os rapazes atirarem piropos e galanteios, que as raparigas fingem
ignorar.
É
o tempo das mulheres cuidarem das raparigas, não vão elas dar conversa aos
rapazes da terra, que têm de voltar para as suas casas, sãs e salvas, no final
da contrata.
É
um tempo que corre contra o tempo.
É
um tempo sem tempo, desabando à voz do capataz como farpas afiadas nos
sentimentos das gentes, anúncio de fim de descanso, de regresso ao pão que é
preciso ceifar, enfardar e transportar para as máquinas que separam o grão, tão
esperado no moinho.
–
Quando me casar deixo esta vida, vocês vão ver!
É
a esperança de melhores dias a falar pela boca das raparigas.
–
Porquê?
–
Vais casar-te com quem, se aqui todos têm a mesma vida…
É
o desencanto nas suas vozes.
–
Olha, tanto o filho do patrão como os da vila nem conhecem a gente!
Riem,
sem vontade de rir. Riem com vontade de chorar, de rebentar essa cadeia que as
atormenta, que nem sonhar deixa.
Tomam
as posições na seara, as mulheres levando duas margens e os homens três.
A
tarde arrasta-se, lentamente, para desespero das mulheres e dos homens que
nunca mais veem chegar a merenda e o pôr do sol, que é como quem diz o fim do
dia de trabalho.
O
cansaço toma conta dos braços e das pernas dos homens e das mulheres até
ficarem dormentes, até os dedos obedecerem como se fossem máquinas ferrugentas
e dessincronizadas, valendo-lhes as dedeiras feitas de canas, somando marcas
dos golpes da foice, que já manobram com dificuldade.
Quando
o sol começa a desaparecer no horizonte, os homens e mulheres do rancho juntam os
seus pertences, que amanhã é outro dia, mas a rotina é a mesma.
É
já noite quando o rancho regressa aos casões onde pernoitam, em regra palheiros
e vacarias, porque palha não há ainda e o gado só recolhe de inverno. Duas
filas de tarimbas longitudinais, encostadas às paredes, de um lado homens
solteiros, do outro, mulheres solteiras e os casais preenchendo os lugares
vazios, na sequência homem-mulher, mulher-homem, que assim dita o respeito
nestas bandas.
Isilda
procura o seu olhar. Triste. Cansada.
Até
a paixão perde o brilho no cansaço dos corpos.
–
Raio de tempo! – murmura para si, sem esperar resposta. Culpa-se, como todos os
homens de então se culpam, por não conseguir uma vida melhor para a sua
família.
–
Qualquer dia emigro. Logo te venho buscar.
–
Raio de vida! – Responde Isilda, com a voz cansada que tão bem lhe conhece –
nem me apetece abraçar-te… Mas não te quero longe de mim. Se tu fores, eu
também vou.
Aninha-se
nos seus braços, em silêncio. Deitados nas tarimbas, descansam os corpos, que
não tarda são horas de voltar à seara.
Os
espíritos, esses, voam nas asas da brisa que se levantou, percorrendo lugares,
tempos e esperanças sem fim!