sábado, 29 de agosto de 2020

Estórias dos dias sem fim - Estrela Boieira

 Já a estrela boieira desaparecia no céu quando pegou no farnel e saiu para os campos.

Os bois esperavam pacientemente, já emparelhados e brochados na carreta.

– Chico, levas tu os bois lá para as searas, que eu vou à frente com a égua – disse ti Bento Malaquias esporeando a égua que seguiu a trote.

Era caminho para uns bons três quartos de hora ao ritmo cadenciado dos cascos dos animais e do lamento das rodas do carro, ferindo o silencioso despertar do dia, chamando para a vida diurna todos os seres protegidos pelo manto da noite.

Breves momentos em que a magia dos sonhos noturnos se confunde com os primeiros raios de luz do dia, que esvoaçam numa brisa leve e timidamente fresca, arrastando consigo os sons da planície que desperta.

Breves momentos em que os sons e os cheiros da madrugada se esvaem pelo pensamento, trazendo de novo memórias antigas, dolorosas, sem remédio agora.

Os pensamentos levam-no até à sua infância, ao dia em que ouviu o avô dizer que o ia levar à escola para aprender a ler e a escrever, que era coisa boa e bonita e seu grande desejo.

O orgulho que sentiu caminhando ao lado do avô em direcção à vila, foi abruptamente cortado pela voz do capataz, oferecendo-se para levar o moço para a herdade, para tomar conta dos porcos:

– É vinte e cinco tostões e o comer – disse de uma assentada!

Tempos duros aqueles, em que por vinte e cinco tostões ao mês e o comer ficou adiado o seu sonho de aprender a ler e a escrever!

Ainda dói. Provavelmente vai doer toda a vida, mesmo sabendo que não podia ter sido de outro modo, que o avô não tinha trabalho e a fome entrava em todas as casas, avassalando todo um povo.

Tempos duros esses!

Tempos duros estes, que continuam hoje!

À medida que se aproxima do rancho, ficam mais nítidos e perceptíveis os sons e as vozes, as conversas e os risos. Os vultos tomam formas, permitindo reconhecer cada um dos seus companheiros.

O sol vai subindo no céu.

Já o capataz deu as suas ordens.

Já o rancho avança na cadência de uma moda.

Já o Manel, que é coxo de nascença, saiu para a fonte com a burrinha manca, para que não falte água aos homens e mulheres, que o astro ameaça calor.

Já o suor teima em correr por entre o pó dos rostos, já cansados.

Já a Felismina carregou lenha, fez lume debaixo da azinheira grande e olha pelo jantar do rancho, para que não falte nem lume nem água em nenhuma panela, pois os homens e mulheres chegam ao meio-dia.

Já o Manel inicia a terceira viagem à fonte. Só chegará junto do rancho a horas do jantar.

À hora o rancho junta-se debaixo da azinheira grande, cada um com a sua panela, onde invariavelmente cozeram o feijão ou grão com arroz ou batatas, que é o que a terra dá, e um pequeno naco de toucinho, de tempos a tempos linguiça e, raramente, outro conduto.

É o tempo do descanso da hora de verão, duas horas bem merecidas para que os corpos refresquem e se recomponham da dureza do trabalho da ceifa, dos fardos e do calor.

É o tempo de mulheres e homens da terra conhecerem melhor as mulheres e homens que chegaram em camionetas de caixa aberta, vindos de outras terras, desenraizados pela falta de trabalho, à contrata, que é como quem diz escolhidos como escravos, em praças de jorna, pelos capatazes que corriam as terras em redor.

É o tempo das graças, dos dichotes, das brincadeiras, também essas já cansadas de tanto serem repetidas ao longo dos tempos, mas, quer por força do cansaço quer por jeito de quem as diz, mantêm alguma boa disposição.

É o tempo de as raparigas sonharem, brevemente, com histórias de princesas e príncipes, encantos que as vozes dos mais velhos cortam, proíbem, chamando-as à dura realidade.

É o tempo de os rapazes atirarem piropos e galanteios, que as raparigas fingem ignorar.

É o tempo das mulheres cuidarem das raparigas, não vão elas dar conversa aos rapazes da terra, que têm de voltar para as suas casas, sãs e salvas, no final da contrata.

É um tempo que corre contra o tempo.

É um tempo sem tempo, desabando à voz do capataz como farpas afiadas nos sentimentos das gentes, anúncio de fim de descanso, de regresso ao pão que é preciso ceifar, enfardar e transportar para as máquinas que separam o grão, tão esperado no moinho.

– Quando me casar deixo esta vida, vocês vão ver!

É a esperança de melhores dias a falar pela boca das raparigas.

– Porquê?

– Vais casar-te com quem, se aqui todos têm a mesma vida…

É o desencanto nas suas vozes.

– Olha, tanto o filho do patrão como os da vila nem conhecem a gente!

Riem, sem vontade de rir. Riem com vontade de chorar, de rebentar essa cadeia que as atormenta, que nem sonhar deixa.

Tomam as posições na seara, as mulheres levando duas margens e os homens três.

A tarde arrasta-se, lentamente, para desespero das mulheres e dos homens que nunca mais veem chegar a merenda e o pôr do sol, que é como quem diz o fim do dia de trabalho.

O cansaço toma conta dos braços e das pernas dos homens e das mulheres até ficarem dormentes, até os dedos obedecerem como se fossem máquinas ferrugentas e dessincronizadas, valendo-lhes as dedeiras feitas de canas, somando marcas dos golpes da foice, que já manobram com dificuldade.

Quando o sol começa a desaparecer no horizonte, os homens e mulheres do rancho juntam os seus pertences, que amanhã é outro dia, mas a rotina é a mesma.

É já noite quando o rancho regressa aos casões onde pernoitam, em regra palheiros e vacarias, porque palha não há ainda e o gado só recolhe de inverno. Duas filas de tarimbas longitudinais, encostadas às paredes, de um lado homens solteiros, do outro, mulheres solteiras e os casais preenchendo os lugares vazios, na sequência homem-mulher, mulher-homem, que assim dita o respeito nestas bandas.

Isilda procura o seu olhar. Triste. Cansada.

Até a paixão perde o brilho no cansaço dos corpos.

– Raio de tempo! – murmura para si, sem esperar resposta. Culpa-se, como todos os homens de então se culpam, por não conseguir uma vida melhor para a sua família.

– Qualquer dia emigro. Logo te venho buscar.

– Raio de vida! – Responde Isilda, com a voz cansada que tão bem lhe conhece – nem me apetece abraçar-te… Mas não te quero longe de mim. Se tu fores, eu também vou.

Aninha-se nos seus braços, em silêncio. Deitados nas tarimbas, descansam os corpos, que não tarda são horas de voltar à seara.

Os espíritos, esses, voam nas asas da brisa que se levantou, percorrendo lugares, tempos e esperanças sem fim!

segunda-feira, 17 de outubro de 2016

No meu tempo não era nada assim!

Tentando fazer render o pouco tempo disponível, Dona Ana foi ao banco na sua hora de almoço.
A fila para atendimento chegava à porta e, lentamente, lá foram sendo atendidos os clientes.
À sua frente uma senhora com uma criança de não mais de 5 ou 6 anos, que após deambular pela sala como qualquer criança destas idades, cheias de vida e energias, aborrecida de ali estar tanto tempo, começa a interagir com os outros clientes.
E a menina passa por um e pisa, passa por outro e dá um encontrão com as suas forças, passa por outro e dá uma palmada, tudo com a complacência da mãe e de algumas das pessoas atingidas e do visível descontentamento de outras.
E a menina passa por Dona Ana e dá-lhe um pontapé.
E Dona Ana, que não é de modas, assenta um estalo na menina!
O factor surpresa fez o seu efeito e a menina parou uns instantes. De seguida corre a chorar em altos berros para junto da mãe.
A mãe assistiu incrédula ao que acabava de acontecer e corre para Dona Ana em defesa da sua menina.
Mas Dona Ana, que não é de modas, e antes que a mãe diga o que quer que seja, trava-a:
– Cale-se ou a seguir é você. Onde é que já se viu deixar uma criança andar a bater em toda a gente!
A conversa terminou ali e a menina não voltou a bater em ninguém enquanto ali esteve.

Esta pequena história aconteceu há já uns bons anos, mas continua bem actual. 
As crianças têm tendência para fazer birras, com o objectivo de sensibilizar os pais para satisfazer os seus desejos, sejam eles de um brinquedo ou de um chocolate que foi recusado.
Os pais têm tendência para evitar confrontos que, pensam, irão marcar os seus filhos para o futuro. Por outro lado, é mais fácil evitar o confronto quando o tempo foge e os bons hábitos de convívio familiar se esfumam por entre as correrias do dia-a-dia. 
Mas já dizia a minha amiga Toya que "uma palmada na altura certa não quebra osso"!

sábado, 30 de julho de 2016

O idoso, o velho e os trapos….

Gerações atrás os jovens cedo asseguravam os seus empregos, constituíam famílias, fixavam residência em casas à medida das suas posses ou dos seus sonhos. Raramente incluíram nesses projectos de vida os seus futuros idosos, esses que foram os seus pilares, as suas referências, quem lhes deu asas para voar e consolidar a sua vida adulta.
Quarenta anos após a Revolução de Abril, a longevidade aumentou, fruto de melhores condições de vida, melhores cuidados de saúde, higiene e alimentação. Condições que, com a regressão dos últimos anos, irão reflectir-se na qualidade de vida das próximas gerações, aquelas que supostamente irão cuidar de nós.
Se a chegada dos filhos pode ser programada e preparada com tempo, o mesmo não se passa com grande parte dos nossos idosos que, rapidamente ficam doentes, perdem as suas capacidades e a sua autonomia.
De repente toda a estrutura familiar oscila com esta alteração.
Os nossos idosos ou velhos são estigmatizados pelos seus comportamentos tidos como desadequados na sociedade, que se comportam como gente pequena mas com os vícios e manias de gente crescida e sabida, com a experiência de uma vida rica de vivências, conhecimentos, vidas com história.
Os nossos idosos ou velhos que nos habituámos a ter ao nosso lado sempre que precisámos são agora os que precisam de nós, que dependem de nós.
Os papéis invertem-se.
E a solução passa pela institucionalização do idoso em centro de dia ou lar.
A nossa educação não nos permite equacionar estas hipóteses com bons olhos. Os lares sempre foram vistos como “depósitos de velhos que vão para ali para morrer”, imagem que durante muitos anos correspondeu à realidade. Ainda hoje existem situações menos dignas à conta dos lucros obtidos pelos seus proprietários ou gerentes, sendo notícia o encerramento de algumas pelas entidades competentes.
O papel das associações, principalmente de reformados, pensionistas e idosos, tem sido de acabar com esses rótulos e construir verdadeiras instituições de apoio aos idosos e às famílias, onde os idosos ou velhos tenham algumas actividades de acordo com os seus gostos, usos e costumes, para que a velhice seja vista como uma fase da vida tão normal quanto digna.
A isso também obriga a evolução das sociedades modernas onde se quer um ser humano maior, mais digno, mais feliz, cuidador da família e onde os valores humanistas imperem.

Porque idosos um dia seremos nós, mas velhos são os trapos!

terça-feira, 26 de julho de 2016

Quadras soltas

É muto made1 d'alcançar
A regra do bom viver
Porque a gente nasce e morre
Nunca acabamos de aprender

É uma vida regalada
Esta vida de ganhão
Rêgo abaixo rêgo acima
Com o arado na mão

Ao romper da bela aurora
Se levanta o indivíduo
Pronto, calçado e vestido
Almoça p'ra se ir embora

Se eu tivesse o que nã tenho
E o que eu tenho me ajudasse
Sem pedir nada a ninguém
Talvez que me governasse.

Popular desconhecido



1difícil

domingo, 17 de julho de 2016

Esqueceram-se...

Olhando para este post da página de apoio a Pedro Passos Coelho, apetece-nos perguntar que foi que o calor fez ao cérebro destes senhores?
- Esqueceram-se que foram eles que mandaram os nossos jovens e desempregados emigrar?
- Esqueceram-se que foram eles que, com as suas políticas retrógradas, enviaram milhares de trabalhadores para o desemprego?
- Esqueceram-se que foram eles que nos venderam a uma União Europeia caduca e moribunda, mas que tenta a todo o custo salvar-se subjugando e espezinhando os povos?

Esqueceram-se de tanta coisa que até têm o descaramento de dizer que são contra o 'aproveitamento político dos emigrantes', porque se esqueceram que é o que têm feito nestes anos todos!

Esqueceram-se ou é mais uma tentativa de tapar o sol com a peneira?

terça-feira, 28 de junho de 2016

Nunca ouvi um alentejano cantar sozinho

Nunca ouvi um alentejano cantar sozinho
com egoísmo de fonte

Quando sente voos na garganta
desce ao caminho
da solidão do seu monte,
e canta
em coro com a família do vizinho.

Não me parece pois necessária
outra razão 
- ou desejo
de arrancar o sol do chão -
para explicar
a reforma agrária 
no Alentejo.

É apenas uma certa maneira de cantar.


José Gomes Ferreira
Uma certa maneira de cantar

domingo, 1 de maio de 2016

MULHER MAIO

Bom dia, minha amiga, digo em Maio
és uma rosa à beira de um tractor
neste campo de Abril onde não caio
a nossa sementeira já deu flor.

Bom dia minha amiga, eu sou um gaio
um pássaro liberto pela dor
tu és a companheira donde saio
mais limpo de mim próprio mais amor.

Bom dia meu amor estamos primeiro
neste tempo de Maio a tempo inteiro,
contra o tempo do ódio e do terror.

Se tu és camponesa eu sou mineiro.
Se carregas no ventre um pioneiro
Dentro de ti eu fui trabalhador.
.
José Carlos Ary dos Santos