Atentemos no
estudo de uma investigadora do Departamento de Biologia e responsável pelo
Herbário da Universidade de Aveiro, Rosa Pinho, publicado no jornal Online da
Universidade de Aveiro, em 02.02.2016, sobre a poda das árvores. Afinal o que é que andamos a fazer ao Planeta:
“(…)
São sobretudo as árvores existentes nos espaços verdes e
arruamentos as principais responsáveis pela qualidade de vida das cidades, pois
para além de adornarem a urbe, possuem um elevado valor ecológico devido
nomeadamente ao seu contributo para a purificação do ar, para a diminuição da
poluição sonora e diminuição do impacto das chuvas. Favorecem o microclima da
cidade, promovendo a conveniente circulação da água e do ar, proporcionam
sombra e refúgio para inúmeras espécies de animais, atraindo especialmente a
avifauna, mantendo assim o equilíbrio dos ecossistemas, contrabalançam com a
sua presença o artificialismo do meio urbano que tanto afeta a saúde
psicossomática das populações, valorizando muito a qualidade de vida local.
Embora com todos estes e mais alguns atributos é notória a
falta de sensibilidade para o importante papel da árvore no meio urbano.
Comprovam isto as podas radicais a que são sujeitas, que lhes tiram a beleza e
reduzem drasticamente as suas funções ecológicas.
A poda de árvores é uma agressão a um organismo vivo, que
possui estrutura e funções bem definidas e alguns mecanismos e processos de
defesa contra seus inimigos naturais. Contra a poda e suas consequências
danosas não existe defesa, a não ser a tentativa desesperada de recompor a
estrutura original, definida geneticamente.
A poda é sempre uma operação desvitalizante, elimina uma
grande parte da copa das árvores chegando nos casos mais drásticos à eliminação
total. Como consequência, a superfície fotossinteticamente ativa é parcial ou totalmente
eliminada, pelo que a árvore fica bastante debilitada. Esta gravidade, causada
pela poda, estimula um tipo de mecanismo de sobrevivência no sentido da árvore
se recompor do traumatismo sofrido, recorrendo para tal às suas reservas
energéticas. Se a árvore não dispõe de tais reservas em abundância, ficará
gravemente debilitada, podendo em muitos casos morrer.
Uma árvore debilitada fica mais vulnerável ao ataque de
pragas e doenças, sendo que alguns insetos e fungos acabam por se aproveitar
destas fragilidades e instalam-se, acelerando nalguns casos a morte das
árvores. Uma árvore decapitada fica completamente desfigurada e debilitada, e
jamais recuperará por completo a sua forma natural. A decapitação é uma prática
incoerente com a fisiologia das árvores, cientificamente errada e socialmente
inaceitável.
Outro mecanismo de sobrevivência das árvores, como resposta
a esta operação traumática, é a produção de múltiplos rebentos, o que lhes
causa um grande desgaste. Isto é interpretado muitas vezes e erradamente como um
rejuvenescimento da árvore, mas não passa de uma tentativa desesperada e
inglória de reposição da copa inicial. Os novos rebentos crescem muito
rapidamente, podendo nalgumas espécies alcançar 6 metros no primeiro ano.
Infelizmente, estes novos ramos de grande fragilidade mecânica têm tendência
para partir com facilidade, principalmente por ação de ventos fortes. Neste
caso, vira-se o feitiço contra o feiticeiro, em que a mutilação vista como uma
forma de proporcionar segurança, torna-se numa forte ameaça para os
transeuntes.
A mutilação fará uma árvore mais perigosa a médio e longo
prazo.
Além da falta de estética que as árvores passam a
apresentar, com a "poda radical" a que são sujeitas, as feridas deixadas
pelos cortes, às vezes de difícil cicatrização, são um perigo permanente de
entrada de organismos patogénicas, além disso, os gomos dormentes que as
árvores possuem e que normalmente não rebentariam vão provavelmente rebentar e
deformar a própria árvore. Alguns tumores, que muitas vezes são observados nas árvores
ornamentais, resultam de muitas podas sucessivas.
Decapitando árvores frondosas, estas estarão à partida
condenadas a não cumprir a sua função ambiental de purificar o ambiente,
proporcionar sombra e frescura, servir de habitat para pequenas aves que ali
nidificavam.
A poda não é uma operação cultural normal em árvores
ornamentais ou florestais, mas sim em árvores de fruto.
A poda em árvores
ornamentais é necessária apenas em casos de emergência.
(…)
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