quinta-feira, 21 de abril de 2016

Não vejo senão canalha

MOTE

Não vejo senão canalha
De banquete para banquete
Quem produz e quem trabalha
Come açordas sem azête

I

Ainda o que mais me admira
e penso vezes a miúdo:
dizem que o Sol nasce para tudo
mas eu digo que é mentira.
Se o pobrezinho conspira
o burguês com ele ralha
até diz que o põe à calha,
nem à porta o pode ver.
A não trabalhar e só comer
Não vejo senão canalha.

II

Quem passa a vida arrastado,
por se ver alegre um dia
logo diz a burguesia
que é muito mal governado
que é um grande relaxado
que anda só no bote e dête.
Antes que o pobrezinho respête
tratam-no sempre ao desdém.
E vê-se andar quem muito tem
De banquete em banquete.

III

É um viver tão diferente!
Só o rico tem valor
e o pobre trabalhador
vai morrendo lentamente.
A fraqueza o põe doente
e a miséria o atrapalha.
Leva no pêto a medalha
que ganhou à chuva e ao vento.
E morre à falta de alimento
Quem produz e quem trabalha.

IV

Feliz de quem é patrão
e pobre de quem é criado,
que até dão por mal empregado
o poucochinho que dão.
Quem semeia e colhe pão
não tem onde se dête
só tem quem o assujête
p'ra que toda a vida chore.
E em paga do seu suor
Come açordas sem azête.

Jaime da Manta Branca – O Poeta Ganhão
1894 / 1955 – Benavila / Aviz
Analfabeto

Cantor e repentista

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